Um aglomerado nos fundos do quintal (Crónica Covid-19)

Postado por:

Eduardo Changule, eduardochangule@gmail.com

(Julho de 2020)

Certamente alguém chamou Mahindra, não é possível que aqueles “cinzentinhos” tenham notado que havia gente ali a tomar cerveja no fundo do quintal.

O sol já abandonara o azul do céu que escurecia cada vez que fornicava com a lua, e como já todos sabem, é dever todos ficarem em casa para evitar a propagação da tosse que está subtrair vidas no mundo inteiro.

Com os bares e discotecas fechadas há quem vende o refrescante prazer fermentado nos fundos do quintal, por isso é comum ver-se homens toldados de embriaguez voltarem para casa guiados pelas paredes de madeira e zinco que serpenteiam os becos da Mafalala, razão pelo qual o cheiro pútrido da urina fermentada pulula algures.

Lugares há em que para ter acesso ao quintal tem que estar inscrito à organização específica que se dedica à fornicação da lei, mas tudo se estraga quando algum Mahindra é accionado, sim aqueles agentes abusam do chamboco sobre os corpos dos aglomerados até que o mais caro “refresco” seja pago a seu favor.

Mas desta vez alguém de má-fé traiu tio Mazuze. Dizem que a família reunira-se nos fundos do quintal em número de trinta e dois para um corte de bolo pela passagem de mais um aniversário do patriarca da família que somava para 60 anos de idade – até porque as massas de trigo pintadas a vermelho formavam a silhueta do número seis e zero com uma lata de Dozem por cima, sua cerveja favorita.

Era alegria, sobretudo por ter sido surpresa programada por suas três esposas com quem divide o telhado em quartos diferentes incluindo filhos e netos.

Só pode ter sido um vizinho invejoso mesmo, talvez por não ter sido convidado, dizem que com essa pandemia a família preferiu não chamar os vizinhos.

Era momento de Parabéns para você… quando os agentes deram uma drampa que levantou uma poeira que ainda se reflecte sob forma de constipação na vizinhança próxima, destruíram agressivamente o portão de zinco improvisado que hoje pende como evidência para o lado de fora.

“…e amigos também” já algemavam o aniversariante lacrimejante de emoção, talvez de alegria pala surpresa ou tristeza de ver algemada toda sua família e recolhida às duas celas da esquadra que já trasbordava de vendedores atrasados no encerramento de estabelecimentos, passageiros sem máscaras e outros festejantes aglomerados.

Há quem diz que o maior azar do tio Mazuze é a poligamia, afinal ninguém foi convidado à festa, mas sua família é sempre uma aglomeração quando os filhos das suas três esposas, com quem vive, voltam dos serviços e se juntam para o habitual jantar familiar.

Mas dizem que os mais novos já foram libertados faltando pagar três “paus” por cada adulto encarcerado, sim é esse o refresco que cobram nessa pandemia por isso já vou me embora antes que me encontrem aqui no “Banco da Praça” sem Máscara.

 

Glossário:

Cinzentinho – é uma expressão informal que nasceu no seio da comunidade moçambicana para designar a Polícia de Proteção baseado na extinta cor cinzenta do uniforme dos agentes. A expressão cinzentinho mantem-se firme e activa na comunidade mesmo depois da mudança da cor do uniforma dos agentes para azul.

Dozem – fonologia coloquial patente quando se quer dizer 2M, marca de cerveja típica e produzida em Moçambique.

Drampa – inércia provocada por uma viatura quando travada bruscamente em alta velocidade. 

Mafalala– Bairro periférico da capital Maputo.

Mahindra– Marca de viaturas usadas pela polícia sobretudo para patrulha durante a vigência do Estado de Emergência devido à pandemia da Covid-19 em Moçambique, o termo ganhou popularidade nas redes sociais e é sujeito de muitas graças nas diversas plataformas de comunicação.

Paus– mil.

Eduardo Changule

Activista Político contra a Violência e Colaboradora do CEDE


* Este texto faz parte da série Manifestações da violência em Moçambique. O CEDE trabalha desde 2017 com um projecto que tem como objectivo geral discutir a violência e as suas manifestações na sociedade Moçambicana. A ideia é de mostrar que a falta de atenção no assunto da violência leva a que ela seja normalizada no dia a dia do país, tornando cada vez mais difícil a adopção de comportamentos sociais e políticos que possam conduzir a uma paz duradoura no país. Os testemunhos em forma de textos, fotos e vídeos partilhados aqui são de cidadãos e colaboradores do CEDE

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