Covid-19 e Conflitos em Moçambique

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A pandemia do Covid-19 tem o potencial de exacerbar a vulnerabilidade das pessoas em locais de conflito militar. De acordo com a International Crisis Group, a pandemia pode criar desordem em estados frágeis, provocar largos distúrbios sociais e testar de forma severa os sistemas internacionais de gestão de crises. Moçambique tem uma população em situação de extrema vulnerabilidade devido aos conflitos na zona Centro e Norte do país, tem que gerir a pandemia sem recursos para arcar com os custos das medidas sociais e económicas, e mostra uma tendência muito grande de aproveitamento político da crise. Mesmo havendo oportunidades que podem ser aproveitadas para melhorar a governação e reduzir a intensidade do conflito, existem até hoje poucos indícios de que isso esteja a ser tentado pelos diferentes actores políticos e pelos parceiros de cooperação de Moçambique.
Numa perspectiva de conflito, os desenvolvimentos em redor da Covid-19 em Moçambique mostram contornos preocupantes. Quando a pandemia eclodiu, Moçambique se encontrava mergulhado em três conflitos, dois domésticos e um internacional. No plano doméstico, temos a continuação do conflito político-militar na zona centro e da insurgência em Cabo Delgado. No plano internacional, existe o conflito com os parceiros resultante do escândalo das dívidas ocultas. A pandemia vem assim encontrar um sistema político doméstico extremamente fragilizado, e uma população a viver já em condições de extrema vulnerabilidade.
As reações dos diversos actores foram marcadamente diferentes. Os actores internacionais optaram por tomar a pandemia como um factor orientador e financiaram os esforços do governo de combater os efeitos nefastos do combate à Covid-19 – que se desenrolam nos campos biomédico, social e económico. Neste sentido, estes preferiram colocar de lado as suas divergências com o governo. No plano doméstico, o inverso parece estar a acontecer. É difícil ver esforços do governo, da Junta Militar da Renamo, e dos insurgentes em colocar a vulnerabilidade da população acima dos seus desígnios políticos. Propostas de amenização das hostilidades escasseiam da parte dos tres beligerantes.
É preciso notar positivamente que apesar desse continuar da beligerância política no país, o Presidente da República tem-se pronunciado com vigor sobre a necessidade de gerir de forma firme mas pacífica os desvios comportamentais dos cidadãos. Esta empatia do Presidente para com o povo, quando se trata dos excessos de zelo dos agentes da lei e ordem, suaviza muitos dos potenciais ressentimentos populares.
Infelizmente, a crise da Covid-19 está a levar à um potencial aproveitamento político da crise. A cobertura noticiosa sobre a pandemia pesa desproporcionalmente a favor do partido no poder, e responsáveis governamentais. De certo modo, o combate à pandemia, que é do poucos actos políticos no país que detém consenso nacional, se transforma na cobertura mediática num evento governamental-partidário.
Até ao momento, o país continua a fazer tanto a guerra como a política, da mesma forma como fazia antes da pandemia.
Por: Sheid Eura Massave*
Email: Sheidmassave@gmail.com
(Agosto de 2020)
Activista Política contra a Violência e Colaboradora do CEDE

* Este texto faz parte da série Manifestações da violência em Moçambique. O CEDE trabalha desde 2017 com um projecto que tem como objectivo geral discutir a violência e as suas manifestações na sociedade Moçambicana. A ideia é de mostrar que a falta de atenção no assunto da violência leva a que ela seja normalizada no dia a dia do país, tornando cada vez mais difícil a adopção de comportamentos sociais e políticos que possam conduzir a uma paz duradoura no país. Os testemunhos em forma de textos, fotos e vídeos partilhados aqui são de cidadãos e colaboradores do CEDE interessados em contribuir para uma discussão mais aberta sobre a violência na sociedade Moçambicana. Com estas publicações individuais, o CEDE pretende oferecer uma plataforma de discussão onde cidadãos podem participar na construção de um Moçambique livre da violência.
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