Matalane: onde estão as outras mulheres que no dia a dia são violentadas no local do trabalho?

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Porquê Matalane e não UEM, Renamo, Frelimo, MDM, ou AR?

Numa altura em que se discute vigorosamente sobre os avanços da mulher na economia e na criação de Desenvolvimento no país e no mundo fora, os actos de Matalana vêm mostrar que existe uma outra corrente negativa e paralela que se desenvolve e que pode minar esses avanços.

É recorrente ouvirmos nos debates da mídia e em conversas corriqueiras que os assédios sexuais são a moeda de troca da mobilidade social ascendente no país nas instituições públicas e privadas de formação académica, em associações cívicas e em partidos políticos. De forma regular se diz e se aceita que a mulher è objecto de satisfação de paixões lascivas dos seus superiores hierárquicos em troca de um tratamento privilegiado ou cargo de chefia nas instituições públicas, privadas e filantrópicas.

Será que estamos diante de um problema estrutural? E sobre o caso da Escola prática policial de Matalana sediada no Distrito de Marracuene na província de Maputo, um local onde se faz o juramento à bandeira como sinal de servidão à nação, e onde actos de filantropia deveriam constituir-se num cliché do funcionamento da instituição, os actos de violência contra a mulher são deflagrados copiosamente. Será essa então uma evidência de que esse comportamento data desde tempos mais remotos do funcionamento dessa instituição?

Neste alvoroço feminino de repúdio justificado contra o que ocorreu em Matalane, pouco se diz sobre as outras mulheres que sofrem de assédio sexual nos postos de trabalho e nos locais de formação.

Onde é que estão as formandas da UEM que hoje são directoras nacionais e de ONGs, as deputadas parlamentares e as outras mulheres que sofrem caladas? Se mesmo elas que têm tanto poder e visibilidade não se atrevem a romper com o silêncio, o que esperar dos milhares de mulheres invisíveis que sofrem assédio e violação constante dos seus superiores? Enquanto o caso de Matalana equipara-se à covid-19 onde à cada dia cresce o número de casos confirmados, onde está a moral das instituições públicas, se os seus membros não lutam contra esses fenómenos? E mais do que isso, onde está a moral da sociedade se tantas mulheres violadas hoje se sentem orgulhosas dos lugares cimeiros que ocupam como resultado de se terem calado e aceite a moeda de troca?

Arcélia Ngomane

(Agosto de 2020)

arceliangomane@gmail.com

Activista Política contra a Violência e Colaboradora do CEDE


* Este texto faz parte da série Manifestações da violência em Moçambique. O CEDE trabalha desde 2017 com um projecto que tem como objectivo geral discutir a violência e as suas manifestações na sociedade Moçambicana. A ideia é de mostrar que a falta de atenção no assunto da violência leva a que ela seja normalizada no dia a dia do país, tornando cada vez mais difícil a adopção de comportamentos sociais e políticos que possam conduzir a uma paz duradoura no país. Os testemunhos em forma de textos, fotos e vídeos partilhados aqui são de cidadãos e colaboradores do CEDE interessados em contribuir para uma discussão mais aberta sobre a violência na sociedade Moçambicana. Com estas publicações individuais, o CEDE pretende oferecer uma plataforma de discussão onde cidadãos podem participar na construção de um Moçambique livre da violência.

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